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Clarice

26 maio

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

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Karen – In Utero

4 maio

Dear Karen,

If you are reading this, it means I actually worked up the courage to mail it; so good for me. You don’t know me very well, but if you get me started I tend to go on and on about how hard this writing is for me. This is the hardest thing I ever had to write. There no easy way to say this so I’ll just say it: I met someone. It was an accident, I wasn’t looking for it, I wasn’t one to make it was the perfect storm. She said one thing and I said another and the next thing I knew I wanted to spend the rest of my life in the middle of that conversation. Now there’s this feeling in my gut that she might be the one. She is completely nuts in a way that makes me smile–highly ironic; a great deal of maintenance acquired. She is you Karen, that’s the good news. The bad news is that I don’t know how to be with you right now, and that scares the shit out of me. Because if I am not with you right now I have the feeling we will get lost out there. It’s a big bad world full of twist and turns and people have the way of blinking and missing the moment. The moment that could have changed everything. I don’t know what’s going on with us and I can’t tell you should waste a leap of faith on the likes of me… But damn you smell good — like home– and you make excellent brownie; that has to count for something.

Call me!

Unfaithfully yours,

Hank Moody